Cresci na Cândido Pessoa, coração
do Bairro Novo, em Olinda.
No tempo, as ruas paralelas da
Getúlio Vargas eram todas de terra, daquelas que deixavam da cabeça ao pescoço
cinza, do peito à coxa laranja e do joelho pra baixo preto, toda vez que rolava
uma peladinha.
E sempre rolava, até arrancar o
samboco do dedão ou da planta do pé de um, até as mães se unirem e gritarem pra entrar pra tomar
banho, ou até rolar uma confusão, que sempre acabava em doces xingamentos às
mães alheias, mas nada que precisasse da intervenção do STJD.
Camisa contra sem camisa (quase
ninguém tinha barriga), sem juiz. Juiz pra quê? Quem marcava as faltas era o próprio time ou
a galera que ficava esperando a próxima. E sem direito a replay ou consulta ao Arnaldo e, já
que a “regra é clara”, tinha muita regra não...
Barrinha de coco, de pedra, de paus, de
havaianas, do que fosse... Marcavam-se as traves com passos, sempre aumentando
um pouquinho a barra do time adversário, pra tentar garantir o placar, lógico.
A bola só saía quando subia a calçada, às vezes subia tanto que caía na casa do
povo. Tinha casa com cachorro brabo (um até lascou minha coxa uma vez, guardou
um pedaço de mim dentro dele até ser reciclado por Genézio), tinha casa com
dono brabo, que não devolvia as bolas (saudade do “Seu” Furtado), tinha casa
com tanta planta que a gente até perdia as bolas, as do jogo, claro.
Essas, as bolas, um capítulo à
parte. Tinha essa coisa de bola de couro não, a disputada dente-de-leite, uma
puro sangue emborrachada que só ficava boa quando muito usada, já sem marca
nenhuma do fabricante era a tecnologia de ponta. Se algum jumento desse um
bombão no pito, a bicha saia zunindo e ai de quem botasse a coxa na frente! A
marca demorava uns três dias pra começar a sumir.
Geralmente dois contra dois e a
galera de fora rezava logo pra sair dois gols e o próximo time entrar... Às
vezes demorava e a turma chiava: “dois minutos ou vai pros pênaltis!” E era
isso, os pênaltis eram batidos de uma barra para acertar a outra, sem ninguém pra
defender, não tinha essa de cavadinha de Loco nem nada, o cara tinha que
acertar e pronto, ou ia se lascar de raiva de tanto que iam arriar com a cara
dele, levava logo o nome de pé ronha...
E, se um time ganhava duas, três
seguidas, dando banho, saia e olé, pense na fuleiragem que era! Todo mundo
gritando quando saía um drible diferente. Ninguém dominava de canela! A gente
tinha que se adaptar às “elevações do terreno” e dominar a bola do jeito que
ela viesse, mesmo se batesse numa pedra antes de chegar. Pra fazer gol, a bola
tinha que passar pelo meio das “traves” e baixa, ou rasteira ou quase tocando o
chão, senão não valia. Ali se jogava bonito...
Hoje, pra jogar com amigos tem
que ter campo society, chuteira fluorescente do Neymar, coletes e juiz federado.
Tem até jogo para videogame de futebol de rua, pra suprir tudo isso. A resenha hoje dura só o tempo de pôr o meião e a caneleira e de vez em quando depois
do jogo, se rolar um happy hour. Resenhar durante a partida é “desrespeito ao
time adversário” e se fizer três embaixadinhas, apanha por ser considerado um mau caráter!
É, depois querem saber porque o
futebol brasileiro pena...

4 comentários:
Texto perfeito, negão. Só faltou citar que o meio de campo era o quebra-mola da rua, se carro ousasse passar pelo meio, teria que esperar a bola sair e o aquecimento era jogar 3 dentro e 3 fora.
Delega... vc conseguiu me remeter aos primórdios da humanidade, com aqueles vizinhos cabeções, todos suados... os shorts azuis com viés branco... hahaha.. meu irmão era um desses. Tempo mara!!! Beijos
Muito legal o texto Mo!!!!!
Rapaz, esses ''xingamentos'' eu lembro sim...Será que eram de janela pra janela...Eita, dona Socorro e dona Eunice sofriam....
beijao..
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